A dor do luto
- Natália Pierdoná

- 8 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
O mês de novembro costuma ser uma época difícil para algumas pessoas, já que é celebrado o dia de finados. O mês finalizou, mas a dor de quem vivencia o luto, pode ser mais duradoura. Falar sobre a morte pode ser muito difícil, porque carrega em si a dor da perda. E a dor da perda que faz parte do luto é difícil porque implica em aceitar que quem partiu não voltará jamais. O luto implica a memória da pessoa.
Existem lutos ainda mais complicados quando as pessoas envolvidas não tem socialmente tanto direito de sofrer, por tabus culturais. Por exemplo: quando a causa da morte foi suicídio, no luto de quem mata enquanto passando por surto psicótico, em situações de crimes como assassinato, na população negra que muitas vezes é silenciada e tem seu sofrimento deslegitimado pelas circunstâncias, na morte por LGBTfobia, entre outros... Existe também o luto coletivo que acontece em comunidades, bairros ou cidades, quando pessoas públicas ou pessoas conhecidas localmente falecem repentinamente, ou pela brutalidade da causa da morte.
Quando a pessoa perdida não era bem quista por alguns, não era vista como um ser humano digno, por ter cometido crimes ou por ter sido uma pessoa vista como problemática, muitas vezes o luto não é visto como legítimo. Entretanto, todas as pessoas tem familiares, tem mãe, irmãs, filhos... e essas pessoas próximas, por pior que fosse a relação, também podem sofrer a dor da perda, e esse sofrimento é legítimo, é possível de acontecer. Não existe erro em chorar por uma pessoa querida que se foi. Mesmo que essa pessoa não fosse socialmente aceita.

Em todas essas situações, independente das causas da morte, é importante lembrar que não existe um tempo certo para o luto, ou ao contrário do que por muito tempo era difundido, não existem fases adequadas para o luto... cada pessoa vai vivenciar o luto da sua maneira. Os procedimentos pós luto também serão vividos por cada pessoa enlutada no seu tempo.
Quem sabe o que fazer e quando fazer é a pessoa enlutada. Uma dica é não fazer sozinho os procedimentos práticos dolorosos do luto, e sim, convidar alguém que não está com a mesma ferida do luto que você está vivendo, convidar alguém que te respeite e te ouça.
A médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes diz que o luto em si não tem fim, já que a pessoa que se foi não voltará jamais. O que pode mudar é o sofrimento, que ameniza e se transforma em saudade, com o tempo.
Existem manais médicos de diagnósticos que costumam classificar o luto patológico como sendo todo luto que demora mais do que algumas semanas ou meses. Mas será que isso é mesmo possível? Será que quando perdemos alguém muito importante, que fazia parte da nossa constituição enquanto sujeitos, apenas poucas semanas são suficientes para a vida voltar ao normal? Ou será que o luto dura só 1 ano? Na verdade, o luto é pra sempre, porque a pessoa nunca mais volta. O que diminui é o sofrimento. O luto não tem um tempo estipulado. Cada pessoa vai vivenciar o luto da sua maneira.
Entretanto, é importante pensar que não existe luto menos válido. Todos têm o direito de expressar seu sofrimento, de estarem enlutados. Não existe também a noção de que o sofrimento ameniza em quem já teve muitas perdas pregressas. Mesmo que a pessoa já tenha passado, infelizmente, por outros lutos anteriormente, a pessoa que se foi é única, e o sentimento de vazio pela falta dela também será único e sofrido da sua maneira.
Como diz Ana Cláudia Quintana Arantes, “O luto é como uma caverna que você entra sozinho e tem que descobrir sozinho como sair, e sair por outra porta, porque quem partiu nunca mais voltará, e a pessoa enlutada nunca mais será a mesma.” As manifestações de sofrimento devido ao luto podem variar de acordo com cada cultura, e de acordo com as circunstâncias da morte. A amenização da dor do luto é um processo, uma travessia, e requer tempo e paciência. Muitas vezes se houver sentimento de injustiça relacionado à morte, também pode haver um sentido de transformação, como produto do luto, e como uma forma de transformar a dor em uma saída.
A psicóloga e pesquisadora Jeane Saskya diz que “o que se perde leva consigo parte de nós, pode ser uma pessoa em que investimos afetos (amor, gratidão, raiva, ódio), um projeto de vida, uma relação, a capacidade de executar algo, bens materiais, status social, memórias, uma oportunidade”.
Passar pelo luto não é fácil, e pode ser mais dolorido a depender do grau de relação com a pessoa querida que partiu. Encarar a dor do luto como uma travessia pode ser um caminho para amenizar o sofrimento com o tempo, e transformar a dor em saudade.
Natália Pierdoná
Médica de Família e Comunidade
CRM-BA 49.032 / RQE 27.935



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